“Corro há muitos anos e nunca senti nada. Estou a treinar para a Maratona de Blumenau e, durante um treino leve, senti um batimento estranho no coração, seguido de um grande cansaço. Inicialmente, ignorei, mas, pouco depois, a sensação repetiu-se e resolvi interromper o treino. O que pode ser? Tenho de parar de correr? Corro perigo de vida?”
O atleta em questão tem um excelente nível de preparação, com um tempo abaixo dos 35 minutos nos 10 km. O que estará a acontecer? Deve realmente parar de treinar? Será algo comum? Vamos aprofundar o tema.
O que são arritmias cardíacas?
A arritmia cardíaca é uma alteração no ritmo do coração, podendo manifestar-se como batimentos demasiado rápidos (taquicardia) ou demasiado lentos (bradicardia), em relação ao esperado para a situação em causa. Estas alterações podem ter origem numa condição cardíaca subjacente, numa causa desconhecida ou serem simplesmente variações normais do organismo.
Nos últimos anos, a relevância das arritmias no desporto cresceu exponencialmente, impulsionada pela evolução tecnológica e pelo aumento da prática regular de exercício físico com fins preventivos. Se, por um lado, ficou claro que o exercício físico regular traz inúmeros benefícios, por outro, os exames médicos avançados – como eletrocardiogramas, holter, ecocardiogramas e testes ergométricos – permitiram detetar pequenas alterações cardíacas que, de outra forma, poderiam passar despercebidas.
Quando uma arritmia é identificada precocemente e devidamente acompanhada, pode ser gerida sem impedir a prática desportiva. A monitorização e a adaptação do treino ajudam a minimizar riscos, permitindo que o atleta continue a praticar exercício com segurança.
O exercício físico e o impacto nas arritmias
Durante o início do exercício, ocorrem alterações significativas no funcionamento do coração, incluindo o aumento da frequência cardíaca (FC), uma resposta fisiológica normal ao esforço.
A taquicardia induzida pelo exercício é, na maioria dos casos, benéfica e necessária para que o corpo satisfaça as exigências energéticas. No entanto, em algumas situações, a elevação da FC pode desencadear ou evidenciar uma arritmia previamente existente.
Curiosamente, certos tipos de arritmia, como algumas extra-sístoles, desaparecem quando a frequência cardíaca ultrapassa os 100 bpm. Contudo, para indivíduos com doenças cardíacas subjacentes, o esforço físico pode precipitar alterações elétricas no coração, tornando-se um fator de risco.
O exercício também provoca um aumento da pressão arterial, da força de contração do músculo cardíaco e do consumo de oxigénio pelo coração. Em pessoas com obstruções nas artérias coronárias, este maior esforço pode causar isquemia (redução do fornecimento de oxigénio ao músculo cardíaco), favorecendo o aparecimento de arritmias.
É importante notar que as alterações cardíacas induzidas pelo esforço não desaparecem imediatamente após a cessação do exercício. É por isso que algumas arritmias surgem não durante, mas sim após o treino ou durante a fase de recuperação de um teste de esforço.
Conclusão
As arritmias cardíacas são relativamente comuns, tanto em atletas de alta competição como em praticantes ocasionais. Embora a maioria não represente um risco significativo, é fundamental estar atento a sintomas persistentes, como palpitações, tonturas ou fadiga excessiva.
A prática desportiva, quando aliada a exames médicos regulares e a uma abordagem preventiva, permite identificar eventuais alterações cardíacas e adaptar o treino às necessidades individuais. Em caso de dúvida, é sempre recomendável procurar um especialista para uma avaliação detalhada.





