Comecei a dar os primeiros passos na corrida no verão de 2000. Estava de férias e o meu marido, o Paulo, andava a treinar para uma meia maratona. Insistiu comigo para experimentar e disse que, se gostasse, ainda ia a tempo de me preparar para a 1.ª edição da Meia Maratona Vasco da Gama. Lá fui eu, um bocado a medo, confesso.
A minha estreia foi na mini maratona, que aconteceu ao mesmo tempo da Meia Maratona de Portugal. O Paulo foi para a meia e eu atirei-me sozinha à mini, no meio de uma multidão. Aquilo parecia uma maratona inteira! Não fazia ideia do que estava a fazer — nem como correr, nem como me hidratar, nada. Acabei a prova sem saber se ia querer repetir… mas repeti. Muitas vezes.

Estar casada com um corredor só trouxe coisas boas. Partilhamos treinos, fazemos provas juntos e ajudamo-nos muito. Nunca houve competição, mas sim parceria. Claro que de vez em quando há umas piadas sobre quem chegou primeiro, mas tudo na boa!
Gosto de distâncias longas — tanto em estrada como no trail. E há uma prova que me marca sempre: a Maratona do Porto. A energia, o percurso, o ambiente, a cidade… dava para repetir todos os anos sem cansar.
Foi numa formação de informática que conheci o Manuel Sequeira, que na altura era tesoureiro da Associação Lebres do Sado. Entre conversa e conversa, convidou o Paulo para treinar com eles. Ele foi… e eu fui atrás. Comecei por caminhadas e provas pequeninas e, quando dei por mim, já estava a ajudar na organização de eventos.
Ao longo dos anos, as Lebres do Sado têm feito um trabalho enorme na comunidade: provas, caminhadas, maratonas, trails, eventos de cycling, até Peddy Papers tivemos. Algumas provas já não acontecem por questões de autorizações ou porque é preciso inovar, mas o espírito continua forte — promover o desporto e combater o sedentarismo.
Fiz parte da direção durante alguns anos, mas agora não tenho nenhum cargo. Sendo a mulher do presidente do clube, acompanho tudo de perto. Quanto a projetos futuros, é a direção que manda, mas sei que há vontade de continuar a criar coisas boas.
Apesar de correr, nunca participei nos eventos organizados pelas Lebres. Estive sempre do lado de quem recebe. Para mim, quando se organiza um evento, somos os anfitriões — e isso quer dizer estar lá, a ajudar e a acolher.
Divido os treinos entre corrida, cycling e ginásio. Durante a semana é tudo mais curto por causa da vida profissional. Sábado é dia de faxina (não gosto, mas alguém tem de fazer ) e domingo é sagrado: treino longo, estrada ou trail, depende dos objetivos.
O dia começa cedo — trabalho às 8h — e treino ao final da tarde. O Paulo normalmente trata do jantar, o resto das tarefas ficam por minha conta. Já tive algumas lesões, claro. Uma das piores foi partir o pé a correr. Fiquei com gesso, perdi massa muscular, fiz fisioterapia… mas nunca pensei desistir. Mudei a alimentação para não engordar muito durante a pausa e mantive o foco até poder voltar.
A corrida trouxe-me muita coisa boa, principalmente pessoas. Fiz amigos incríveis, reencontros em provas que aquecem o coração… até fui madrinha de casamento de um amigo que conheci a correr!

A quem está a começar, digo isto: é possível. Começa devagar, intercala corrida com caminhada, vai aumentando o tempo de corrida aos poucos. Disciplina, consistência e foco — é isso que traz motivação. E se te juntares a um grupo, melhor ainda. Custa menos e dá muito mais pica.
Normalmente corro com companhia. Ter esse compromisso ajuda a manter a rotina. Mas também corro sozinha, quando é preciso. Cada um tem os seus objetivos e há que respeitar.
Cruzar a meta é aquele momento. Às vezes penso “já está!”, outras vezes penso coisas que não posso dizer aqui . Mas há momentos que ficam para sempre, como o Ultra Trail Caminhos de Santiago — 165 km por etapas. Foi um desafio enorme, em que encontrei tudo o que de melhor a corrida me dá: superação, amizade, emoção. No fim, aquele “eu consegui” foi brutal. Não dá para explicar. Só sentindo.
Infelizmente, Setúbal não valoriza muito o desporto fora do meio náutico. Temos serras, temos estradas, mas fazer uma prova aqui é quase missão impossível. E isso custa. Espero que no futuro haja mais abertura e se olhe para o desporto com outros olhos.
E se me perguntas o que penso quando calço as sapatilhas? Depende. Às vezes estou em cima da hora e é só: “Bora!” Outras vezes, agradeço por ter saúde, por ainda estar aqui, aos 57 anos, a fazer o que gosto. A corrida limpa-me a cabeça, ajuda-me a libertar o peso do dia. E levo sempre comigo um lema: “Certeza de começar e vontade de acabar.” Sou teimosa, sim. Mas é essa teimosia que me faz continuar.

Enquanto a vida o permitir… vou continuar a correr.




