A corrida popular sempre foi simples, inscreves-te, pões o dorsal, corres. Agora estão a tentar vender-nos uma versão moderna da “liberdade”: liberdade, sim, só que com portagem. Podes correr, claro. Mas para correres “a sério”, com dorsal, classificação e numa prova homologada, aparece a licença e aparece o pagamento. É a famosa liberdade com bilhete.
E não, isto não é uma discussão sobre “podes correr na rua”. Podes. Também podes ficar à porta do teatro a recitar Shakespeare e dizer que foste ao espectáculo. O tema é outro: condicionar o acesso às provas abertas ao público através de uma barreira económica e burocrática.
1) “Ninguém é obrigado”, a conversa do “vai correr para a rua”
A tese é tecnicamente verdadeira e praticamente irrelevante. O universo real da corrida é feito de provas com inscrição, dorsal, classificação, seguros e logística. Se a regra diz “para entrares aqui, pagas”, então estás a empurrar gente para fora do sistema por via indireta.
A própria discussão pública sobre esta licença diária e o conflito com organizadores já está em cima da mesa, com providências e polémica à mistura.
2) “Não é filiação, é licença”, maquilhagem que não muda o efeito
Chamar “licença” não muda o resultado. Se uma entidade controla a porta via homologação e passa a exigir um pagamento para entrar, isso funciona como uma cancela.
E ainda há um pormenor delicioso: em muitos modelos, o organizador vira cobrador, com integração “regular” e a pressão sistémica de “isto passa a ser o normal”.
3) A conta real de organizar uma prova, o elefante fardado
Aqui entra a parte que só quem organiza é que sente na pele.
Uma das maiores fatias dos custos hoje é policiamento. Antigamente muita coisa era resolvida com voluntários e fiscais de percurso. Hoje, em Lisboa, há provas onde o policiamento anda na ordem dos 10 mil euros, facilmente. E sim, já vimos polícias a controlar passadeiras, como se a corrida fosse um desfile de Estado.
Isto tem muito a ver com o modelo dos gratificados: “quem é que quer ganhar 50 e poucos euros em 4 horas?”. Quase ninguém. Resultado: ou pagas mais, ou não tens gente, ou então tens polícia a fazer tarefas que antes eram resolvidas na comunidade.
E como se não bastasse:
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Há organizadores a reportar subidas perto dos 30% no custo do policiamento este ano (depende da prova e do pacote de condicionamento).
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E há também a sensação no terreno de que a própria FPA apertou o custo do licenciamento/acreditação aos organizadores, em alguns casos com aumentos muito pesados, há quem fale em valores acima de 50%, sobretudo quando mudas de escalão e passas a cair em tabelas novas.
Eu aqui sou directo: isto não é “drama”, é “Excel”. Quando sobes custos fixos, alguém vai pagar.
4) Spoiler do mundo real, cortam onde dói menos, para eles
Quando a factura sobe, os eventos fazem uma destas três coisas:
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aumentam inscrições
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emagrecem a experiência (menos oferta, menos coisas, menos qualidade)
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morrem, sobretudo os pequenos
E sim, uma consequência previsível desta situação é esta: muitos organizadores grandes vão começar a cortar prémios monetários. Não porque ficaram maus, mas porque o dinheiro não estica. Se a tua estrutura leva mais pancada em custos e taxas, os prémios são uma das primeiras linhas a ir ao chão.
5) E enquanto o amador leva com portagens, a elite leva com o funil
Ao mesmo tempo que se complica a vida ao corredor comum, a elite está a ser empurrada para um clube cada vez mais exclusivo.
Exemplo claro: no regulamento da EDP Meia Maratona de Lisboa 2026, para estar no escalão elite, fala-se em mínimos de sub 1h05 (homens) e sub 1h20 (mulheres) em condições específicas.
E nos Campeonatos de Portugal, a tendência de apertar marcas está escrita a preto e branco:
| Ano | Prova | Homens | Mulheres | Notas |
|---|---|---|---|---|
| 2024 | CP Meia Maratona | (regulamento disponível) | (regulamento disponível) | documento de 2024 |
| 2025 | CP Meia Maratona | até 1:10:00 | até 1:30:00 | marcas de qualificação |
| 2026 | CP Meia Maratona | MQ 1:08:00, MIC 1:10:00 | MQ 1:18:00, MIC 1:20:00 | quota total 50 |
Ou seja, os grandes eventos e os campeonatos vão ficando cada vez mais “entra quem traz marca muito forte”. Isto é uma escolha estratégica, mas não dá para fingir que não exclui.
6) “É pela segurança”, certo, mas segurança não pode ser álibi para tudo
Segurança é essencial. Só que segurança não nasce automaticamente de uma taxa. Já há seguros, responsabilidade civil, regras municipais e deveres dos organizadores. Uma federação pode elevar standards, formar, auditar e apoiar. Outra coisa é financiar-se à custa de uma barreira obrigatória para quem não é federado.
Conclusão
A corrida popular não é território para ninguém cobrar renda. A federação pode ser parceira e deve ajudar a melhorar procedimentos, mas quando começa a acumular o papel de porteiro, árbitro e tesoureiro, a confiança quebra.
E o resultado, se isto continuar assim, tende a ser óbvio: inscrições mais caras, menos prémios monetários, mais provas pequenas a desistir, e uma elite cada vez mais fechada num funil de marcas.
