Há ténis que querem ser celebridades. O GEL-NIMBUS 28 não quer. Ele quer ser aquele trabalhador de fábrica que nunca falha, entra cedo, sai tarde e, no fim do mês, ainda está de pé. E para quem corre a sério, ou para quem já correu a sério e hoje escolhe melhor as batalhas, isso vale mais do que hype.
E é aqui que eu entro. Não como influencer de unboxing, mas como corredor com quilómetros na carteira. Já tive semanas de 150 km, já vivi a estrada com aquela fome competitiva de “mais e mais”. Hoje, por opção, estou noutra fase. Faço menos, uma média de 60 km por mês, treinos curtos, cabeça limpa, o corpo a pedir respeito. E sabes o que é curioso? Nesta fase, eu sou mais exigente. Porque já não corro para provar nada a ninguém, corro porque quero sentir-me bem. Os ténis têm de ajudar, não podem ser mais um problema.
O Nimbus 28 é apresentado pela ASICS como um modelo de amortecimento máximo, de estrada, pisada neutra, com drop de 8 mm e cerca de 281 g no modelo masculino.
E sim, custa 200 € na loja oficial.
Preço de topo. Só que topo também é compromisso, e foi isso que eu fui testar.

Primeira impressão: conforto imediato e um calcanhar mesmo bem feito
O Nimbus tem aquela característica rara: calças e parece que já o conheces. O upper (a parte superior) em engineered knit envolve o pé com toque premium, sem aquela sensação plástica de “fizemos isto para ser leve e barato”.
O calcanhar foi o ponto alto logo no primeiro dia. A zona do Aquiles fica bem abraçada, segura, sem pressionar de forma agressiva. Para quem já teve tendões a acordar maldispostos, isto não é detalhe, isto é a diferença entre correr e ficar em casa a fazer gelo.
E aqui digo, sem medo, a ASICS acertou no espírito do Nimbus. Porque esta sapatilha não está a tentar ser divertida. Está a tentar ser confiável. E num mundo cheio de promessas e espuma com nomes de super-herói, isso é quase revolucionário.
Tecnologia, sem palavreado de marketing
A ASICS mete no Nimbus 28 a combinação FF BLAST PLUS e PureGEL, prometendo uma passada leve e suave.
Traduzindo para corredor normal: conforto e absorção de impacto.
Só que há uma nuance importante, e eu adoro quando a ciência põe o marketing a andar de lado, com carinho. Em testes laboratoriais, o Nimbus 28 aparece como super confortável, mas com pouco “rebound”, pouca sensação de devolução de energia. Isto bate certo com o que se sente na estrada: ele é macio, protege, mas não te dá aquela sensação de trampolim.
E isso não é defeito. É personalidade.
A passada: como é que isto se sente a correr?
Ritmo fácil e moderado, aqui é rei
Para rodagens, treinos tranquilos, longos, recuperação, aquele treino depois de um dia pesado, o Nimbus 28 brilha. A espuma é generosa, a base é estável e a sensação é: “vai, eu trato disto”.
Há medições independentes que apontam para uma stack (altura de sola) muito alta, a sério, na ordem dos 39,5 mm no calcanhar e 34,3 mm no antepé.
Tradução: há material suficiente para não “bater no fundo”, e isso é ouro para quem pesa mais, para quem está a voltar, ou para quem quer simplesmente proteger as pernas.
Estabilidade, mesmo sendo neutro
É neutro, sim, mas não é instável. A base larga ajuda e dá confiança. E para novatos isto vale ouro, porque um iniciante não precisa de um ténis nervoso. Precisa de um ténis que não o traia.
Drop: teoria vs prática
A ASICS diz 8 mm, e é isso que está no site oficial. Mas em laboratório houve quem medisse um drop real mais baixo, perto de 5,2 mm. Isso pode explicar porque certas pessoas sentem mais trabalho no antepé do que esperavam. Não é regra, mas é uma pista interessante.
Para quem é o Nimbus 28
Eu recomendo especialmente para:
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novatos, que querem conforto e proteção sem pensar muito
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malta mais velha, que já não tem paciência para dores parvas
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corredores de fim de semana, que treinam pouco mas querem desfrutar e não sofrer
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quem anda acima dos 65 kg, ou quem quer um max cushion a sério
E digo isto porque o Nimbus tem estrutura. Não é minimalista, não é pluma de speedwork. É uma poltrona boa, só que com borracha em baixo.
Comparação direta: Nimbus 28 vs Saucony Triumph 23
O Triumph é o rival natural. Os dois vivem naquele mundo “premium daily trainer”, confortável para muitos quilómetros.
Saucony Triumph 23: o que traz para a mesa
A Saucony posiciona o Triumph 23 como neutro, com espuma PWRRUN PB, e indica offset (drop) de 10 mm (37/27 mm), com peso perto de 263 g na versão masculina. Ou seja, ligeiramente mais leve e com um drop mais clássico. Em laboratório, também há testes a apontar para valores perto dos 272 g.
Sensação na prática
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Nimbus 28: mais “tanque confortável”, mais previsível, mais proteção
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Triumph 23: mais vivo, mais leve no pé, um toque mais responsivo
Se alguém me dissesse: “quero só um para tudo, inclusive dias com ritmos mais rápidos”, eu olhava para o Triumph primeiro.
Se me dissesse: “quero conforto absoluto e pernas frescas”, Nimbus sem pensar.
Durabilidade e sola, porque a malta da estrada quer saber se isto aguenta pancada
Durabilidade não se mede num treino, mas dá para ler sinais.
O Nimbus 28 vem com uma sola que, em algumas versões, aparece descrita como HYBRID ASICSGRIP, e isso costuma traduzir-se em boa aderência em estrada, inclusive quando a coisa está mais húmida. A ASICS também refere que esta versão ficou mais leve do que a anterior, cerca de 20 g, mantendo o conforto.
O knit por cima parece robusto, e este tipo de construção costuma aguentar bem. Mas aqui vai o meu alerta de velho do Restelo, com razão:
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quem raspa calcanhar e arrasta o pé vai sempre gastar sola mais cedo, isso não é azar, é biomecânica
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estrada abrasiva come borracha, ponto final
Preço, o ponto sensível
Na ASICS, são 200 €. Isto mete o Nimbus no território premium sem desculpas.
Para justificar, ele tem de entregar três coisas:
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conforto real
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durabilidade decente
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consistência, treinos bons mesmo quando o corpo não está no seu melhor
E pela primeira impressão, ele cumpre o primeiro requisito com louvor.
Prós e contras, para facilitar a vida
O que eu gostei mesmo
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conforto de entressola, muito consistente
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calcanhar e zona do Aquiles, encaixe de luxo
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estabilidade para um neutro, sensação plantada
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qualidade geral, não parece barato nem apressado
O que me deixou atento
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antepé com algum desconforto a partir do km 6, preciso de confirmar em mais treinos
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não é um ténis “rápido”, pouca sensação de retorno
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preço alto, tens de querer mesmo este tipo de conforto
Veredito, em modo A Minha Corrida
O GEL-NIMBUS 28 é um ténis com postura. Não tenta seduzir-te com promessas mágicas. Dá-te conforto, dá-te segurança, dá-te uma corrida honesta.
Para mim, nesta fase da vida em que corro menos, mas quero correr melhor, isto vale muito. Porque já não preciso de sofrer para me sentir corredor. Preciso de sair, respirar, fazer o meu treino e voltar inteiro.
E se a ASICS quer ficar impressionada, a receita é simples: verdade. Eu digo que o Nimbus 28 é bom, sem parecer anúncio, porque também digo onde senti dúvidas. Marca séria não quer bajulação. Quer respeito. E respeito ganha-se assim, com corrida feita, pernas no asfalto e opinião limpa.